segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

MOMENTO DO PENSADOR - SIGMUND FREUD

FREUD - ALÉM DA ALMA

Freud explica: "A ciência não é uma ilusão, mas seria uma ilusão acreditar que poderemos encontrar noutro lugar o que ela não nos pode dar". Esta pequena citação freudiana é o ponto de partida do roteiro de Freud - Além da Alma, escrito pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre e dirigido pelo lendário John Huston. Infelizmente, no entanto, o diretor exagera no clima hollywoodiano (o que, inclusive, desagradou o filósofo e roteirista Jean-Paul Sartre) e apega-se demasiadamente a artificialismos, neutralizando tudo. A luz da lógica, o fio condutor da história é o próprio Freud - aqui interpretado elegantemente por Montgomery Clift -, que com persistência e brilhantismo conquista o espectador.
Huston realiza uma pseudo-biografia do psicanalista vienense, mas descrevendo apenas um período de cinco anos (a partir de 1885) da vida do médico e pai da Psicanálise. Nessa época, a maioria dos colegas de Freud se recusavam a tratar dos casos de histeria por acreditar que tudo não passava de fingimento dos pacientes para chamar atenção. Mas Freud, não satisfeito, passou a aplicar a técnica da hipnose, que viria a se tornar uma prática no tratamento psiquiátrico. Ao longo destes anos, John Huston nos mostra como Freud iniciou seus estudos e desenvolveu a teoria da psicanálise.
Sem rodeios, o diretor nos mostra já na primeira cena que Freud não aceitaria o tratamento para pacientes com histeria de forma fácil. Na verdade, o médico prova para o professor e todos os outros presentes (que fingem não reconhecer) que não há uma solução tão simples para a histeria. A partir daqui, o que veremos na tela é uma construção de personagem melancólica e filosófica, tendendo muitas vezes para o antagonismo da arte, onde o autor expressa sua visão por meio de argumentos interessantes, mas que perdem autoridade pela opção narrativa demasiadamente controversa. Há um exagero, por exemplo, no uso do flashback. E logo este recurso que pode acrescentar tanto charme viu-se perdido pelo falta de criatividade do roteiro de Sartre, que não sustenta-se na estrutura cinematográfica.
É uma pena também que o filme aborde de maneira tão superficial o tema da sexualidade, já que esta temática foi bastante recorrente na vida de Freud - e não vale dizer que foi por causa da época em que foi filmado, pois muitos outros diretores tratavam do tema com grande elegância na mesma época, como Billy Wilder, Frank Capra e Ingmar Bergman, por exemplo. Claro que há a descoberta e a angústia, que fazem do filme um exercício interessante - e cena onde Freud fala do Complexo de Édipo numa palestra ilustra isso muito bem -, mas faltou alma e propriedade ao personagem principal, que certas vezes parece um homem sem sentimentos, apenas atento ao trabalho. Mas nada disso acontece por incompetência de Montgomery, pois o ator se entrega completamente ao personagem, o problema estava mesmo no desenvolvimento dos laços deste.
Com altos e baixos, é assim que Huston carrega seu filme, com refinamento técnico e boa plasticidade visual (auxiliada pela fotografia em P&B, que valoriza o lado dark da história e explora muito bem o uso das sombras, algo pelo qual o diretor sempre prezou), mas também carece na construção da ação dramática, que nunca envolve o espectador por completo.