domingo, 17 de outubro de 2010

ESTUDO DA TÁTICA I


O VALOR ABSOLUTO E RELATIVO DAS PEÇAS

Todo iniciante no jogo do xadrez, sabe de uma referência ao valor absoluto e relativo dos elementos operativos, peças e peões, ou seja da força que exerce cada peça ou peão. O peão é a referência absoluta unitária, depois o cavalo que vale três peões, o bispo que vale três peões  e meio, a torre que vale cinco peões e finalmente a dama que vale nove peões. Para melhor visualizar esta relação absoluta veja o quadro abaixo.

QUADRO I
VALOR ABSOLUTO DAS PEÇAS

PEÇAS
NÚMERO DE CASAS QUE DOMINA NA POSIÇÃO CENTRAL d4
VALOR
PEÃO
02
01
CAVALO
08
03
BISPO
13
03
TORRE
14
05
DAMA
27
09

Daí  é importante saber que o valor de cada peça ou peão depende do elemento primordial do jogo do xadrez que é a posição. Os componentes integrantes da posição são três a saber: a força, espaço e tempo. A força corresponde ao material ou elementos operativos(peças e peões), sem o espaço(tabuleiro) e sem o tempo(a oportunidade de jogar), a posição não existe. Pois por outro lado a posição em seu conjunto, é dizer, como tal, determina a importância e o valor de peças e peões(força), dos diferentes quadros ou pontos do tabuleiro(espaço) e da oportunidade de jogar(tempo). Pois esta tabela de valores não devemos concebê-la como uma forma fixa. Somente pode proporcionar-nos uma referencia aproximada das trocas. As peças se encontram sempre em movimento, atuam aqui fortemente, debilmente ali, por isso oscila o valor relativo das peças.
Uma peça menor e dois peões, valem, na prática uma torre e aqui temos a soma ( 3 + 2 = 5), absolutamente correta; porém dois bispos (2 x 3 = 6) são, quase sempre, mais eficientes que uma torre e um peão ( 5 + 1 = 6), enquanto que três peças menores (3 x 3 = 9) são na maioria das vezes, muito mais fortes do que duas torres ( 2 x 5 = 10).
Esta avaliação, naturalmente, é abstrata e não pode ser aplicada a qualquer posição particular; representa o valor prático das peças individualmente, ou seja, a relação mútua que se verifica na maioria das posições. Não deve, entretanto, ser tomada como válida para todas as posições concretas, pois o valor das peças é relativo: depende do carácter da posição quanto do material existente no tabuleiro a um dado momento.
Vejamos agora vários exemplos para ilustrar o que falamos.

 (1) Hellers,F - Eingorn,V
Campeonato dos EUA, 1992

1.Bxe5 Txc4+ 2.Rd5 Txc5+ [2...Txa4! com idéia de Ra2-g2-g8 3.c6? fxe5 4.c7 Td4+] 3.Rxc5 fxe5 4.Rd5 Rg6 5.Rxe5 Rg5 6.Re4 h5 7.Re5 Rh4 8.Rxf4 As pretas perderam a oportunidade de ganhar em seu movimento ...Rxc5 ao não saber valer a sua vantagem material (força), pois conseguiram empatar com um recurso de afogamento; não tem para onde mover(espaço), correspondendo a jogar(tempo). 1/2-1/2

 

 

(2) Exemplo 02

O ESPAÇO
As brancas têm uma excelente posição com domínio central do tabuleiro, pois tem seu rei exposto na coluna h e as pretas aproveitaram esta dificuldade em base a importância desta área do tabuleiro neste momento: 1...Bb4! (para coordenar as torres) 2.Cxb4 Txh2+ 3.Rxh2 Dh4+ 4.Rg1 Th8 parece inevitável a vitória das brancas ante a ameaça 5....Qh1++ 5.Ah6! [se 5.f3 segue 5...g3 bloqueando a saída do rei, porém existiu algum recurso...] 5...Txh6 6.Dxh6 Dxh6 todavia as pretas não ganharam, mas melhoraram em muito a sua posição em relação a inicial. *

 

(3) Kasparov,G - Salov,V
World Cup Barcelona, 1989

A FORÇA 
 É aqui o momento onde se altera a proporção material deste jogo e os valores absolutos e relativos que se pesam como pratos de uma balança. 1.Cxe6! [1.Rxg2? Dxb6 2.Cxe6 fxe6 3.Dxe6+ Be7 4.Te1 Db7+] 1...fxe6 [1...Bxa1 2.Cxd8+ Rxd8 (2...Be5 3.c5 Bh3 4.Txd6+-) ] 2.Dxe6+ Be7 3.c5!! [3.Te1 Db7] 3...Bb7 [3...Bc6 4.Tac1 Dc7 5.cxd6 Txd6 6.Txd6 Dxd6 7.Dxd6 Bxd6 8.Txc6+-] 4.Te1 Dc7 5.c6!! Bxc6 [5...Bc8 6.Cd5 Bxe6 7.Cxc7++-] 6.Tac1 Td7 7.Cxd7 Dxd7 8.Dc4! [8.Txc6 Dxe6 9.Txe6 Rd7 10.Txe7+ Rxc6+/-] 8...Bb7 [8...Bb5 9.Dc8+ Dd8 10.De6 Bd7 11.Dxd6 Rf7 12.Dd5+ Rg7 13.Tc7!+-] 9.Dc7 Tf8 10.Db8+ Rf7 11.Tc7! 1-0

 

 (4) Exemplo 04

O TEMPO 
Quanto ao tempo, por suposto se faz bem importante jogar a cada lance, nada aceitaria que o adversário jogasse duas vezes seguidas, este é seu valor absoluto, pois entretanto há posições aonde o efeito de ter que jogar faz perder e outras nelas que tem de manobrar de maneira que se cede a vez ao adversário desfavoravelmente. Este é o valor relativo do tempo, por demais de que cada uma das jogadas não tem a mesma importância, se trata de considerações relacionadas com a posição. Há aqui uma amostra do acontecimento  1.Dd4 Rb1 2.Dd3+ Ra1 3.Dc3 Se repete a posição pois agora as pretas são obrigadas a jogarem como única jogada 3....Rb1 o que permite as brancas ganhar com Qc1++ Mate.  O valor absoluto e relativo da Força, do Espaço e do Tempo, esta presente em toda partida de xadrez e é portanto uma regularidade dentro do processo. A correta valorização a cerca da efetividade que tenha uma peça ou peão, o importante de um quadro ou área do tabuleiro e o proveitoso ou não de ter a oportunidade de jogar em uma posição determinada, comforme uma boa medida da maestria enxadrística. 1-0


(5) Exemplo 05

As peças menores frequentemente variam de valor em relação umas às outras, e isto será motivo de por menorizada atenção posteriormente. Algumas vezes, porém, flutuações ainda maiores se produzem com outras peças. Por exemplo: uma torre é, geralmente, muito mais poderosa do que uma peça menor, mas um cavalo centralizado pode, por vezes, igualá-la. # Aqui, as brancas estariam em vantagem se pudessem colocar sua torre em ação contra o rei preto; mas não podem fazê-lo, nem por via a3, nem via f1. 1.Ta3 [1.Td1 Cf3 2.Tf1 e4 3.Td1 e3-+] 1...e4! 2.Txa6 Cf3 3.Ta3 e3! 4.Tb3 [4.Txe3?? Db1+-+] 4...e2 Por estas razões, o cavalo preto pode ser considerado tão forte quanto a torre branca, e como as pretas possuem um peão a mais como compensação adicional pela qualidade a menos, podemos afirmar estarem em posição superior. 0-1

(6) Najdorf - Ragosin
Interzonal, 1948

Muito variável, também, é o valor da dama. Normalmente, uma dama equivale a uma torre, mais uma peça menor e dois peões; ocasiões há, porém, porém em que pode ser inferior a uma torre, mais uma peça menor e um peão. Daremos um exemplo para demonstrá-lo. 1...Cxe4! 2.Cf6+ Cxf6 3.Txd8 Tfxd8 As pretas sacrificaram sua dama por uma torre, um cavalo e um peão, conseguindo uma posição que a maioria dos competidores ao torneio, consideram boa para seu oponente. As brancas têm vantagem material e sua posição parece ser bastante sólida, apenas a casa b2 apresenta uma debilidade aparentemente provisória. No entanto, posterior da partida prova que Ragosin havia calculado corretamente ao entregar sua própria dama, pois que a de seu opositor permanece, por mais de vinte lances, presa a um ponto Podemos é claro, perguntar-nos porque uma dama deve ser superior a uma torre mais uma peça menor. # Afinal de contas, seus movimentos são meramente a conjugação duas de uma torre e um bispo. Isto é verdade, porém a dama coordena estes diferentes movimentos muito melhor do que as peças podem fazê-lo; sua grande mobilidade torna-a um excelente instrumento de ataque. Nisso se resume a sua superioridade. Sua vantagem, entretanto, é diminuída quando as peças do adversário cooperam bem entre si, cobrindo todos os pontos fracos. A teoria dos finais de partida aponta posições em que uma dama algumas vezes não pode ganhar de uma torre e um peão, por causa da excelente coordenação das forças defensoras; um exemplo similar de cooperação, ainda que algo mais complicado, é o da partida presente, na qual as peças pretas tornam impossível à dama branca encontrar um alvo favorável para ataque. 4.Bd2 [melhor seria 4.Be3] 4...Ce4 sobre esta posição escreveu Ragosin: " Mirando as coisas a fundo, as pretas não têm sacrificado nada, sim que há trocado a dama pela torre, cavalo e peão. As pretas conseguem vantagem de espaço e por isso ficam melhores. Deve notar-se que no transcurso das 25 jogadas seguintes a dama branca não se move". 5.Be3 Cd6! os cavalos devem ocupar posições cobertas; por isso será transladado a f5. Na luta contra a dama é importante evitar a formação de fraquezas táticas que possam ser exploradas pelo oponente. A posição dos cavalos é importante nesta partida, por possuírem excelentes bases de operações; o cavalo em d6, enquanto mira para f5, ameaça assegurar o par de bispos às pretas, mediante c4. 6.Tc1 Cf5 7.Bf4 o ir daqui e ali demonstra que as brancas estão sem nenhum plano. 7...Bd5 8.Bc4 Bxc4 9.Txc4 e5! 10.Bg5? O desejo das brancas em manter a superioridade material, mecanicamente executado, é compreensível, mas conduz a uma rápida catástrofe. [era melhor ter sacrificado a qualidade com 10.Txc6 bxc6 11.Bxe5] 10...Td1+ 11.Rh2 h6 12.Tc1 Td7 13.Be3 e4! 14.Ce1 Tad8 15.Bc5 Be5+ 16.g3 Td2 17.Tc2 Bxg3+ 18.Rg2 Be5 [18...Bxf2? 19.Bxf2 e3 20.Dc3 exf2 21.Txd2 fxe1D 22.Txd8+ ganhando] 19.Rf1 Txc2 20.Cxc2 Td1+ 21.Re2 Tb1 22.b4 Tb2 23.Rd1 Tb1+ 24.Rd2 Bf6! 25.Bxa7 Ce5 26.Da4 Cf3+ 27.Re2 Cg1+ as brancas abandonaram. Nada há para fazer após: 28.Rd2 Nf3+ 29.Re2 Nd6 30.Qd7 Ng1 31.Re3 Rd1. 28.Rd2 Cf3+ 29.Re2 Cd6 30.Dd7 Cg1+ 31.Re3 Td1 0-1

 (7) Alekhine - Liliental

1.Dxd8+! Dxd8 2.Bxh4 Dh8 3.Bxf6 Dxf6 4.0-0-0 as brancas estão certas em ceder alguns peões, só para poder fazer avançar o longe possível seus peões livres. 4...fxe4 5.dxe4 Df4+ 6.Td2 Dxe4 7.h4! Dxc4+ 8.Rb1 Df4 9.Tdd1 Dh6 a primeira parte do plano se há completado, a dama se ver obrigada a comportar-se passivamente. Isto permite intervir de modo ativo a segunda torre. Pois as brancas devem contar sempre com que a dama possa passar rapidamente ao contra-jogo e ameaçar com xeque perpétuo. 10.g4 Rd8 como pode se ver posteriormente melhor seria: [melhor seria 10...Rd7] 11.Tde1 a5 12.h5 a4 13.a3 f6 impede um forte movimento. 14.Te6 Rd7 15.g5! Dxg5 16.h6! Dg2 17.Tee1 Dg6+ 18.Ra1 Dh7 agora a dama é desalojada de seu esconderijo com ajuda da torre. 19.Teg1 Re6 20.Tg7 De4 21.Thg1 Dh4 22.h7 b5 23.Txc7 Dh5 24.Te1+ Rd5 25.Ra2! uma valiosa precaução. As brancas se esforçam em abandonar a primeira fila. Para isto movem o rei, com objetivo de que não fique exposto imediatamente ao xeque nesta fila. 25...Rd4 26.Td1+! Re4 teria sido fatal: [26...Re5 27.Te7+ Rf4 28.Tf1+ Rg3 29.Tg7+ Rh2 30.Tfg1] 27.Txd6 De8 28.Txf6 Dh8 29.Th6 a torre assume de novo a posição mais forte. A tarefa da outra torre consiste em expulsar a dama da posição de bloqueio. 29...Rf4 30.Tc8 Dxc8 31.Th4+ Rg5 32.h8D De6+ 33.Rb1 De1+ 34.Rc2 De2+ 35.Rc3 e as pretas abandonaram. 1-0


(8) Panov - Bontsch,Osmolovsky

Duas tores são mais fortes que a dama nos seguintes casos: 1-No caso de que se há trocado a maioria das peças e seja possível iniciar um ataque contra o rei. 2- Quando estão acompanhadas por um peão livre muito avançado. Há aqui dois exemplos. As brancas jogaram 1.axb6 e as pretas contestaram. 1...Bxb6 [melhor seria 1...axb6] 2.Bxb6 depois de 2...Txb6 3.Dxb6! axb6 4.Txa8+ Rh7 a posição das pretas é desesperadora porque as torres conquistaram a sétima fila e não querem ser surpreendidas pela solitária dama num contra jogo. 5.Tdd8 g5 6.Td3 Dc5 7.Ta7 Dc4 8.Tdd7 Dxe4 com o último movimento as pretas aumentam a esperança de um xeque perpétuo. [deve-se ter em conta que depois de 8...Rg6 9.Txf7 Dxf7 10.Txf7 Rxf7 o passo ao final é perdedor para as pretas] 9.Txf7 Rh6 10.Txg7 Db1+ [10...De1+ 11.Rg2 De4+ 12.Rh2 Df4+ 13.Rg1! Dc1+ 14.Rg2!] 11.Rg2 De4+ 12.Rh2 De2 13.Tgf7 Rg6 14.Tf5! as brancas asseguram a posição de seu rei e criam ao mesmo tempo uma rede de mate. 14...e4 15.Taf7 as pretas abandonaram. 1-0